CONFERÊNCIA INTERNACIONAL E INTERDISCIPLINAR

RELIGIÕES AFRICANAS E AFRODIASPÓRICAS GLOBAIS

22-25 de outubro, 2018 : Universidade Federal de Juiz de Fora : ICH

Relevância do tema e seus contextos

 

O encontro histórico do continente africano com o comércio de escravos, histórias e influências coloniais/imperiais árabes e transatlânticos foi marcado principalmente por exploração e expropriação, desumanização e violações de direitos humanos, mas também destruição das religiões africanas autóctones, padrões culturais, bem como locais e objetos sagrados. As marcas culturais europeias e árabes também são vistas no crescimento e propagação do cristianismo e islamismo. Esse encontro de outras formas religiosas e culturais, por um lado, acarretou a depreciação das religiões africanas, resultando na proibição e rejeição de suas cosmovisões e abandono de aspectos de suas cosmologias, simbolismos e práticas rituais. Por outro lado, as religiões africanas responderam às mudanças sociais que ocasionaram influência mútua e revitalização de aspectos das culturas religiosas autóctones. O encontro transformou o pensamento e a prática religiosos autóctones, mas não os suplantou; as religiões africanas autóctones preservaram algumas de suas crenças e práticas rituais, mas também ajustadas ao novo ambiente sociocultural. O cristianismo e o islamismo também foram transformados uma vez que se domesticaram. Essa interação revela um quadro de compreensão das religiões africanas como parte integrante e inerente aos processos de globalização.

 

O significado histórico e cultural das tradições e espiritualidades religiosas africanas autóctones se manifesta parcialmente em sua pluralidade tanto na África como na diáspora africana. As religiões africanas autóctones influenciam os processos de globalização e respondem aos desafios e oportunidades decorrentes. A dimensão global das religiões autóctones na África transcende o continente para a diáspora africana. A migração, o turismo e a apropriação de novas tecnologias de mídia facilitaram a inserção das religiões autóctones em novos contextos. A diáspora africana, resultante do comércio transatlântico de escravos, influenciou profundamente as culturas do Brasil, Cuba, Haiti e o resto do Novo Mundo, o que em parte produziu o desenvolvimento de religiões derivadas da África, tais como o candomblé nagô e a umbanda no Brasil, a santeria (lukumi, macumba) em Cuba, o vodun, as tradições iorubá-orixá e outras tradições enraizadas na África Ocidental e Central presentes nas Américas. Essas formas religiosas se proliferam no contexto da diáspora, com o alcance de adeptos e clientela ampliado de maneira multiétnica e multirracial. No Brasil, que possui a maior população negra fora da África, e em outros contextos da diáspora africana, as religiões afrodiaspóricas sobreviveram às várias décadas de criminalização de suas crenças e práticas religiosas. Em geral, as religiões de origem africana como o candomblé e a umbanda no Brasil ainda enfrentam o racismo institucional e a demonização pública, do mesmo modo que a maioria dos afro-brasileiros é afligida por injustiça racial e marginalização sociopolítica.

 

Apesar dessas ameaças de sobrevivência e extinção, os africanos e afrodescendentes lutam para preservar sua herança cultural e identidade religiosa. As religiões africanas e afrodiaspóricas continuaram a impactar outras religiões do mundo, assim como foram influenciadas por elas. Por exemplo, o português brasileiro foi influenciado ricamente por pessoas de ascendência africana e suas respectivas línguas, enquanto um novo vocabulário afro-brasileiro eclodiu. Os rituais do candomblé foram incorporados ao tecido da identidade nacional brasileira, desde as oferendas ao mar no Ano Novo durante o Réveillon à capoeira, rodas de samba e preferências culinárias como o acarajé. Na umbanda, há uma associação livre de santos católicos romanos com divindades africanas e indígenas. As religiões africanas e afrodiaspóricas também moldaram a arte mundial, a escultura, a pintura e outros artefatos culturais que povoam os famosos museus, galerias, bibliotecas e exposições de arte do mundo. A mercantilização da arte e dos objetos religiosos africanos é crescente. Embora geralmente deslocada do seu contexto “religioso”, o conhecimento hortícola, culinário e medicinal obtém contribuições significativas dos povos africanos autóctones e de sua epistemologia. O caráter das religiões africanas e afrodiaspóricas em condições de globalidade continuará a ser determinado e moldado por como e em que medida elas negociam continuidade, identidade e mudança.

 

A resiliência das tradições religiosas autóctones na África e das religiões de origem africana na diáspora demanda atenção acadêmica para explorar como e em que medida elas são fundamentais para a vida cotidiana de africanos e afrodescendentes. A religião é crucial para a compreensão dos povos africanos bem como das suas comunidades diaspóricas em um contexto global. As religiões africanas abrangem fenômenos que são definidos primordialmente no que diz respeito à sua oralidade, orientação cosmológica e ritual em direção a paisagens geoculturais específicas. Uma compreensão adequada de suas complexas cosmologias religiosas, tradições e culturas aprofunda a compreensão dos povos africanos e afrodescendentes em condições de globalidade. A religião é um motor para a formação da diáspora e para a construção e manutenção de identidade cultural e sistemas de valores.

 

Em que medida as cosmovisões e religiões africanas autóctones permanecem relevantes para os africanos no continente e seus descendentes na diáspora, especialmente em uma era globalizante? Como sintetizar os sistemas de crenças, cosmologias, rituais e práticas das tradições religiosas africanas em uma referência coerente e um guia sagrado para adeptos e não adeptos? O que faz as religiões africanas sinalizarem contra o cenário de xenofobia e privação socioeconômica em contextos de secularização acelerada? O que explica a resiliência das tradições religiosas africanas apesar de uma percepção pública negativa? Como e em que medida as religiões africanas e as religiões derivadas da África moldaram os contextos locais, as culturas e as sociedades dentro dos quais elas são praticadas? Até que ponto as religiões africanas autóctones e as religiões afrodiaspóricas são influenciadas por outras tradições religiosas no âmbito global? Como e em que medida as religiões africanas autóctones e as religiões derivadas da África respondem a questões globais de pobreza, corrupção, conflitos, paz, liberdade religiosa e mudanças climáticas? Essas pertinentes questões e problemas motivaram a organização do primeiro Colóquio das Religiões Africanas Autóctones Globais na Universidade Obafemi Awolowo, em Ile-Ife, Nigéria, em agosto de 2016, um evento histórico com a participação de cerca de 100 participantes (estudiosos, pesquisadores, religiosos e atores políticos), oriundos de três continentes: África, Europa e Américas.

 

A 2ª Conferência Global de Religiões Africanas e Afrodiaspóricas eclode no encalço desse bem-sucedido evento, programado para ocorrer na Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil, em outubro de 2018. A escolha do Brasil como próxima sede é estratégica. Em primeiro lugar, a diáspora africana é basilar para a compreensão da globalização das religiões africanas. Em segundo lugar, a diáspora africana foi declarada pela União Africana (UA) como a 6ª região da África. Em terceiro lugar, o Brasil é o lar da maior população negra (diáspora africana) no mundo, depois da Nigéria. Dados demográficos recentes do Brasil mostram os afro-brasileiros como maioria pela primeira vez, com os resultados do censo de 2010 revelando que mais de 50,7% da população agora se identificam como pretos ou pardos, em comparação com 47,7% que se definem como brancos (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE). Por fim, o Brasil é a terra do candomblé, uma das maiores religiões de origem africana do mundo. A 2ª Conferência Global de Religiões Africanas e Afrodiaspóricas proporcionará outra plataforma significativa para que estudiosos, praticantes de religiões africanas e afrodiaspóricas, atores políticos, grupos comunitários da diáspora africana, ONGs, organizações religiosas e públicos interessados possam ​​avaliar criticamente o status, a natureza e o papel das religiões africanas e afodiaspóricas globais em paisagens religiosas locais e globais. Como temas e subtemas do encontro inaugural, a conferência explorará abordagens variadas para o estudo das religiões oriundas da África com ênfase no foco regional e diaspórico. Discutirá também os desafios específicos enfrentados por estudantes e acadêmicos no estudo de religiões africanas e afrodiaspóricas em todo o mundo. A conferência também busca encorajar pesquisas acadêmicas e explorar vias de documentação e preservação das religiões de origem africana.

 
 

ORGANIZAÇÃO

 

Comitê Científico Nacional

Comitê Científico Internacional

Jimmy Sudario Cabral

Universidade Federal de Juiz de Fora

 

Volney Berkenbrock

Universidade Federal de Juiz de Fora

 

Sônia Corrêa

Universidade Federal de Juiz de Fora

 

Robert Daibert

Universidade Federal de Juiz de Fora

 

Barbara Daibert

Universidade Federal de Juiz de Fora

Felipe Fanuel Rodrigues

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Ivanir dos Santos

Centro de Articulação de População Marginalizada / UFRJ

Afe Adogame 

Princeton Theological Seminary

Raimundo Barreto

Princeton Theological Seminary

 

Ishola Williams

Pan African Strategic and Policy Research Group (PANAFSTRAG)

Paulo Ayres Mattos

Koinonia Presença Ecumenica

Jimmy Sudario Cabral

Universidade Federal de Juiz de Fora

Felipe Fanuel Xavier Rodrigues

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Ullrich R. Kleinhempel

Bavaria College, Schweinfurt, Germany

David Ogungbile

Obafemi Awolowo University

Nokuzola Mdende

Icamagu Heritage Institute

APOIO:

CONTATO

Para outras perguntas e comentários envie um e-mail para conferenciareligioesafro@gmail.com

 

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